Ausência do eleitor tem contribuído para abstenção recorde em Corumbá, entre 26,89 (2022) e 25,75% (2018)
A Justiça eleitoral de Mato Grosso do Sul divulgou um cronograma de apoio às comunidades rurais de Corumbá e Ladário para a eleição de domingo, garantindo transporte gratuito de suas regiões até as urnas. Contudo, mais uma vez, foram excluídos os eleitores de áreas remotas do Pantanal – um número expressivo, considerando as cerca de 1.800 fazendas na planície -, os quais tiveram seus títulos transferidos para a cidade.
O TRE/MS definiu sete rotas operadas por ônibus, atendendo as localidades do distrito de Maria Coelho (Morraria do Urucum), Porto Morrinho (ponte sobre o Rio Paraguai, na BR-262), Forte Coimbra e os assentamentos São Gabriel, Taquaral (agrovilas 1 e 3), Jacadigo, Paiolzinho e 72 e na Apa Baia Negra. Não foram contemplados o distrito de Porto da Manga, distante 60 km de Corumbá, e a comunidade do Passo da Lontra (120 km).
Os eleitores do histórico Forte Coimbra, onde funcionou uma seção, vão deslocar mais de 240 km (ida e volta) em ônibus convencional até o domicilio eleitoral, Porto Esperança. Se chover domingo, a estrada arenosa fica intransitável. Os eleitores de Porto Morrinho, embora distantes apenas 14 km de Porto Esperança, vão votar em Corumbá, a 70 km. Na mesma região, o distrito de Albuquerque também não terá o transporte gratuito.
Sem estrada, agora implantada, urna e mesários eeram transportados de barco pelo Rio Paraguai até Porto EsperançaFazendeiros apoiavam
A extinção das seções eleitorais no Pantanal foi sacramentada no início do século 21, sob a alegação de “impedimentos operacionais para manter urnas em escolas rurais e locais isolados que exigem deslocamento por rio ou avião”. O êxodo rural, por conta de enchentes e desastres ambientais, também contribuíram. A única sessão mantida, a 175, da 7ª zona eleitoral, está localizada em Porto Esperança, distante 85 km da cidade.
Nas últimas eleições, a abstenção bateu recorde entre os eleitores do Pantanal, devido a dificuldade de locomoção até a cidade e o alto preço da tarifa cobrada pelos lancheiros e motoristas de lotação. O translado de lancha gera um gasto médio de R$ 500 por pessoa (ida e volta), mais alimentação e estadia, em viagens de até 24h da Barra do São Lourenço. O peão ainda perde pelo menos três dias de trabalho na fazenda.
Em épocas sem meios de comunicação, onde a informação chegava pelo rádio, e do voto manual (de papel), a Justiça Eleitoral mantinha oito seções nos maiores núcleos populacionais do Pantanal, funcionando em escolas ou sedes de órgãos públicos, como a Embrapa. Os fazendeiros apoiavam a logística, cedendo suas aeronaves para transportar urnas e mesários. Não há registro de irregularidades.
Hoje, as comunidades tradicionais isoladas, como as colônias do Rio Taquari (acesso pelo rio e estrada) e os ribeirinhos da Serra do Amolar (pelo rio), têm sinal digital e o celular de última geração, porém, são impedidos do direito de exercer sua cidadania por meio do voto na região onde moram. O Sindicato Rural de Corumbá estima que mais de 60% dos pantaneiros aptos a votar não comparecem às urnas na cidade.
Energia solar chegou aos mais longinquos lugares do Pantanal, assim como o sinal digital: por que não a seção eleitoral?Internet e energia solar
“O direito ao voto continua cassado na planície”, reage o pantaneiro Armando Arruda Lacerda. Segundo ele, autor de vários artigos sobre o tema, as urnas do Pantanal eram as últimas a serem apuradas e modificavam resultados consagrando os vitoriosos. “Hoje, com internet nas escolas das águas (rurais) e energia solar instalada no Pantanal, nada impediria o funcionamento com segurança das urnas eletrônicas”, cobra.
Líder ruralista na região, o fazendeiro Manoel Martins de Almeida lembra que o dia de eleição no Pantanal era especial, de festa. “As comunidades se reuniam, chegando de barco, cavalo ou trator. O pantaneiro se orgulhava do direito de votar”, lembra ele, dono de fazenda na sub-região do Paiaguás. “O fechamento das seções foi um prejuízo lastimável à cidadania”, lamenta Martins, que transportou urnas e mesários em seu avião.
A reportagem de LUGARES questionou o TRE/MS, por meio de sua comunicação, se haveria transporte gratuito também aos eleitores do Pantanal. Não houve resposta. Em eleições anteriores, os cartórios de Corumbá informaram que a logística é garantida às comunidades que manifestam dificuldades de acesso às seções. No caso do Pantanal, não houve nenhum pedido para as eleições de domingo.


























