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MT reduz desmatamento, mas “tratoraço” normativo fragiliza metas ambientais

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Cuiabá, MT – Nota técnica divulgada pelo Instituto Centro de Vida (ICV) mostra que Mato Grosso registrou queda de 32% no desmatamento na Amazônia e Cerrado entre agosto de 2023 e julho de 2024.

Contudo, o estudo aponta que pressões normativas ameaçam as metas ambientais assumidas internacionalmente pelo Estado de Mato Grosso na eliminação do desmatamento ilegal até 2030.

Confira nota técnica na íntegra AQUI.

O documento divulgado nesta terça-feira (10) mostra que Mato Grosso perdeu 1.700 kmda Amazônia e Cerrado, o que representa uma queda em relação ao período anterior. O número revela que o estado alcançou patamar de desmatamento histórico em relação à última década.

Com base nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de 2024, a nota técnica demonstra que o desmatamento em Mato Grosso repete o perfil de anos anteriores, sendo predominantemente ilegal e altamente concentrado em grandes propriedades rurais inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Paralelamente, contudo, o documento sinaliza que há novas dinâmicas em curso, a exemplo de uma alta na liberação de autorizações para o desmatamento legalizado por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e do avanço da degradação progressiva das florestas por meio do fogo nos últimos anos.

Cenário de ameaças

Enquanto a queda do desmatamento desenha um cenário positivo para Mato Grosso, pressões normativas, encabeçadas tanto pelo Executivo quanto pelo Legislativo, ameaçam o cumprimento das metas ambientais estabelecidas pelo Estado.

A sanção da Lei nº 12.709/2024, que desmonta a Moratória da Soja responsável por diminuir o desmatamento relacionado à expansão da soja; o projeto de lei complementar nº 18/2024, que pode abrir espaço para o desmatamento adicional de 5 milhões de hectares de áreas de Reserva Legal; mudanças na Lei nº 788/2024 e o projeto de lei nº 4/2024, que flexibilizam a defesa de áreas protegidas, são exemplos de ameaças citadas no documento.

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Analista socioambiental do ICV, Marcondes Coelho aponta como essas medidas normativas podem afetar negativamente os compromissos assumidos por Mato Grosso.

“A queda do desmatamento é uma vitória importante, mas mantê-la requer ações estratégicas e coerentes. Por isso, aprovar leis que penalizam o setor privado engajado com a conservação ambiental ou que colocam em risco áreas preservadas, contradiz os esforços necessários para consolidar essa curva de redução”, disse o analista.

Perfil do desmatamento

Dados do Inpe mostram que Mato Grosso seguiu a tendência nacional de queda nas taxas de desmatamento. Na Amazônia mato-grossense, 1.264 kmforam desmatados, o que equivale a uma queda de 38,3% em relação ao levantamento anterior. No Cerrado estadual, a supressão de vegetação foi de 431,6 km2, que expressa uma queda de 30%.

Ao todo, os incrementos de desmatamento verificados nos biomas somam uma perda de 1700 kmde vegetação em Mato Grosso, o que representa uma redução de 32%. Para alcançar as metas de 2030, contudo, o Estado deve zerar o desmatamento ilegal e reduzir a supressão anual total para 571 kmna Amazônia e 150 kmno Cerrado.

Segundo o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Vinícius Silgueiro, a alta concentração do desmatamento em grandes propriedades aponta o perfil da supressão de vegetação nativa no estado ao longo dos últimos anos.

“O desmatamento mais expressivo em Mato Grosso é feito por quem tem recursos financeiros, porque desmatar grandes áreas, nessa proporção, custa caro. E esses são fatos já conhecidos tanto pela Sema quanto por outros órgãos fiscalizadores, e devem servir de referência para a priorização da autuação e fiscalização por esses crimes, de forma inteligente.”

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Ao todo, 6.985 polígonos de desmatamento foram detectados no período, sendo que em 338, menos de 5% do número absoluto, foi contabilizada 61% da supressão total do ano.

Quando consideradas as categorias fundiárias, os dados revelam que 78,7% do desmatamento ocorreu em imóveis rurais cadastrados, isto é, com endereço conhecido pelo órgão estadual de fiscalização.

Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas (TIs) representam 7,6% do desmatamento total. No caso das TIs, que são quase 70% das áreas protegidas desmatadas, a maior supressão de vegetação ocorreu na TI Sararé (27,8 km2), em Conquista D’Oeste. Já a Reserva Extrativista Guariba Roosevelt foi a mais atingida entre as UCs (9,5 km2).

Compõem também o quadro geral de desmatamento os assentamentos com 116 kmdesmatados, 6,8% do total, e as áreas não cadastradas com 130 km2, que representam 7,6%.

Para Silgueiro, a predominância do desmatamento ilegal é um dos pontos que exige atenção por parte do Estado para o cumprimento dos objetivos.

“Já está nítido que a regularização ambiental e o monitoramento e fiscalização não têm sido suficientes para erradicar a ilegalidade do desmatamento no estado. Para além dos embargos e multas, o governo de Mato Grosso tem que empreender esforços e inteligência para combater e acabar com a lógica econômica que aparentemente vigora, de que o desmatamento ilegal compensa, de que supostamente basta o infrator entrar com mandados judiciais e conciliações que se dá um jeito de seguir usando a área que foi objeto de crime ambiental. São necessárias medidas e ações fortes que combatam esse modus operandi.”

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