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O TIRO DE MISERICÓRDIA

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Não, não me sinto velho, me vejo cansado.Chego aos oitenta sem ter visto o tempo passar, tão bom foi ele para mim.Entretanto, posso dizer que no meu pequeno horizonte assisti a muitos acontecimentos.
Vale dizer que mais do que enxergar os fatos, a sua interpretação depende das circuntâncias de cada um e do ângulo do qual os observamos.Se você está no olho do furacão a sua percepção divergirá certamente daquela que os vê de uma perspectiva isenta, de uma larga distância de suas influências em sua vida.

Então chegou o grande dia.Aquilo que permanecia mantido sem uma explicação lógica e convincente por fim se escancara da maneira mais escandalosa e cínica: será criada a Grande Reserva do Alagado do Rio Taquarí. E com a explicação idiota e miserável que a justificaria : são áreas abandonadas há muito tempo por seus moradores.
Malditos, vocês os expulsaram, deixando- os a sua própria sorte, submersos na incompetência e na leniência de muitos governos que preferiram desviar recursos e premiar os causadores desse grande desastre ambiental.Venceu a esperteza! Venceu a política rasteira que comanda este nosso estado que ironicamente deveria ser um estado modelo.
Mas como escapar desse determinismo histórico que condenou o nosso pais a deitar eternamente em berço explendido? Como nos livrar do pecado original que macula nosso destino e nos impede de ser uma nação verdadeiramente séria?

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Então a Natureza impõe porque é mais forte.Então foi a Natureza que provocou o desastre ? Então a conivência do poder público nada tem a ver com isso? Então os recursos desviados para obras eleitoreiras nos municípios das cabeceiras — leia- se COINTA– em nada explica o desastre?Então os técnicos dessas secretarias várias que o povo sustenta não sabem que o asseoramento do rio Taquari é um processo dinâmico e que enquanto não se combate o problema nas cabeceiras e não se faz um trabalho de limpeza do seu leito tudo isso significa apenas a opção pelo caos? Quantas reservas serão criadas no futuro? Que processo mais perverso de expulsar o pantaneiro!

Do caos se nutre essa “política ambiental” com relação ao Pantanal. Fizeram isso no Taquari e fazem isso com o fogo.É tudo uma questão de oportunidade.

O nosso governador é um planaltino e jamais sentirá as dores de um pantaneiro retirante.É tudo uma questão de altitude e latitude. O Pantanal fica longe do poder e sempre foi um grande problema para os nossos governantes.
Tribunais multavam e multam o homem da planície por crimes praticados no planalto.O “progresso” do planalto sempre justificou o sacrifício da planície.Um TAC nunca ou mal cumprido sempre absolveu o criminoso.Esopo se escandalizaria e certamente se absteria de escrever a sua fábula.Sentiria talvez o mesmo remorso de Santos Dumont que viu a sua criação ceifando vidas.Esopo e depois La Fontaine teriam calafrios assistindo a cena pantaneira.

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Assistimos enfim, emocionados, ao ato de reconhecimento do mundo a nossa sábia maneira de conviver com a Natureza.Lindo demais! Como prêmio ganhamos a cada dia mais leis restritivas e agora a Reserva do Alagado do Rio Raquari, sonho de todos aqueles que de alguma forma irão lucrar com tão genial maracutáia.

O super secretário tem um dilema: quanto pagar aos flagelados? Um amigo cogitou que se pague no valor que o Estado estabelece para receber os tributos.Nada mais lógico e justo.Até porque, aquilo que se está comprando, é o mais lindo presente da Natureza, orgulho da nossa população e do governo, a oitava maravilha do mundo.

Não tem mais o bicho homem, mas quem se importa?

Manoel Martins de Almeida

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