Nas últimas duas semanas, tive a oportunidade de visitar muitas famílias, mães de crianças com necessidades especiais, professores e moradores dos distritos do interior de Mato Grosso.
Passei por distritos da região de Porto Alegre do Norte, próxima à divisa com Tocantins, e de Cáceres, na fronteira com a Bolívia. São dois extremos do nosso estado, mas com realidades e necessidades muito parecidas.
Para quem mora no interior, não é fácil chegar a Cuiabá ou até mesmo a polos regionais como Cáceres, Pontes e Lacerda, Rondonópolis e Barra do Garças. Para quem vive nos distritos, essa dificuldade é ainda maior.
Durante essas conversas, surgiu uma proposta simples, mas capaz de transformar muitas vidas: o poder público ajudar a subsidiar linhas regulares de ônibus entre os distritos e as cidades. O ônibus poderia sair por volta das 6h ou 6h30 e retornar no final do dia, com uma passagem acessível para quem precisa fazer esse trajeto diariamente ou algumas vezes durante a semana.
Esse transporte permitiria que as pessoas fossem a uma consulta médica, participassem de um curso, procurassem emprego, resolvessem suas necessidades ou simplesmente passassem um dia diferente com a família, comprando roupas, passeando ou tomando um sorvete.
Não estamos falando apenas de transporte. Estamos falando de acesso à saúde, à educação, ao trabalho, ao lazer e a novas oportunidades. Uma pessoa poderia, inclusive, trabalhar na cidade sem precisar abandonar sua casa e sua comunidade. Isso ajudaria na geração de renda, na circulação do dinheiro e na melhoria da qualidade de vida da população.
Agentes de saúde que trabalham nesses distritos também me relataram que os antidepressivos estão entre os medicamentos mais consumidos pela população. Sabemos que a saúde emocional possui muitas causas, mas o isolamento, a falta de oportunidades e a ausência de opções de lazer também pesam sobre a vida das pessoas.
Muitas famílias acabam se sentindo quase trancadas dentro dos distritos. Por isso, precisamos olhar para a mobilidade distrital como uma política de inclusão, desenvolvimento e saúde pública.
Um ônibus que vai e volta todos os dias não transporta apenas passageiros. Ele leva pessoas ao encontro de oportunidades e traz de volta esperança, autonomia e dignidade.
*Julio Panoff é especialista em supply chain, comunicação e inovação digital. Com formação na Austrália e Nova Zelândia, liderou projetos globais na BRF e o projeto social É Pra Já em Mato Grosso. Email: [email protected]





























