Qual é o impacto do tratamento na terapia multiorgânica dentro da UTI
Nos últimos 40 anos, a medicina intensiva passou por uma profunda transformação, especialmente com o desenvolvimento e aprimoramento da diálise contínua (CRRT – Continuous Renal Replacement Therapy) e as plataformas de suporte multiorgânico, ou seja, que tratam de vários órgãos ao mesmo tempo. Esta evolução tem sido crucial para o tratamento de pacientes em estado crítico, oferecendo soluções mais adaptadas e eficazes[i],[ii].
“Ao longo de décadas, temos acompanhado a evolução tecnológica dessas terapias, desde dispositivos muito artesanais até as avançadas plataformas que temos hoje”, comenta Dr. Paulo Lins, nefrologista, intensivista e gerente médico da Vantive Brasil. “A inovação permitiu que o suporte ao paciente crítico se tornasse cada vez mais abrangente e eficaz.”
A diálise contínua é uma terapia essencial para pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) que enfrentam problemas graves nos rins (chamado de injúria renal aguda) ou outras doenças graves em órgãos vitais. Diferente da hemodiálise convencional, que ocorre em sessões curtas e intensas (geralmente 2 a 8 horas, diariamente ou a critério da equipe médica), a diálise contínua atua durante as 24 horas do dia, de forma gradual e constanteii,[iii],[iv].
Os benefícios da CRRT para o paciente crítico incluem:
- Menos impacto no corpo e na circulação sanguínea: A remoção lenta e contínua de fluidos e toxinas evita quedas bruscas de pressão arterial e sobrecarga no coração, que são comuns na diálise convencional e muito prejudiciais para pacientes graves. Por exemplo, a retirada artificial de 4 litros de líquidos em 24 horas é muito mais tolerável ao organismo do que a mesma remoção em apenas 4 horasii,[v].
- Suporte personalizado: A terapia é adaptada à necessidade individual do paciente conforme sua condição clínica e exames, agindo em sintonia com o funcionamento do corpoii.
- Contínua e integrada: A máquina permanece ao lado do paciente, proporcionando um suporte ininterrupto durante toda sua jornada críticaii.
Além da diálise
A grande inovação das últimas três décadas tem sido a expansão da capacidade dessas plataformas, que deixaram de ser apenas “máquinas de diálise” para se tornarem sistemas de suporte multiorgânico. Isso significa que, com a mesma máquina base, mas utilizando dispositivos e “filtros” especiais, é possível tratar de diferentes problemas nos órgãosii.
Suporte renal: A função primordial da diálise contínua para pacientes com injúria renal aguda, incluindo aqueles que nunca tiveram problemas renais, mas desenvolveram a condição devido a infecções generalizadas graves (sepse) ou grandes cirurgias. Estima-se que 1 em cada 10 pacientes de UTI necessitará suporte renal[vi].
Suporte pulmonar: Dispositivos específicos permitem a remoção do gás carbônico (CO₂) do sangue, auxiliando pacientes que estão respirando por aparelhos ao promover uma ventilação suave e protetora, fundamental para a estabilização e recuperação pulmonar[vii].
Suporte hepático: Tratamento realizado fora do corpo e indicado para pacientes cujos fígados pararam de funcionar. A plataforma permite a limpeza do sangue por meio da remoção seletiva de toxinas prejudiciais, ajudando a estabilizar o paciente enquanto se aguarda recuperação hepática ou transplante[viii].
Tratamento da sepse: Por meio de filtros especiais (sistemas de hemoadsorção), é possível remover substâncias que causam inflamação, toxinas do corpo e resíduos de bactérias da corrente sanguínea. Essa abordagem atua como terapia complementar no manejo da sepse e na redução dos problemas nos órgãos associados, auxiliando na estabilização do paciente crítico[ix],[x].
Troca plasmática (Plasmaferese por membrana): Terapia extracorpórea utilizada principalmente em doenças do sistema nervoso, reumatismo, problemas de imunidade e doenças do sangue. Consiste na remoção do plasma sanguíneo do paciente, a parte líquida do sague, que contém substâncias tóxicas, anticorpos que atacam o próprio corpo ou complexos de defesa, e sua substituição por soluções como a proteína albumina ou plasma fresco, contribuindo para o controle da doença e melhora clínica[xi].
Suporte cardíaco indireto: Ao promover a remoção controlada e gradual de fluidos, esses sistemas ajudam a aliviar o excesso de líquidos no corpo, reduzindo o esforço sobre o coração. Dessa forma, oferecem um suporte indireto para a circulação do sangue, especialmente benéfico para pacientes com problemas no coração ou inchaço no órgão (congestão severa)[xii],[xiii].
“O paciente crítico é, por vezes, uma mistura de várias doenças. Uma plataforma que consegue integrar diversas terapias para múltiplos órgãos em uma única solução facilita o manejo e melhora o cuidado,” explica Dr. Paulo. “É como uma máquina de hemodiálise, mas com ‘filtros’ específicos para cada órgão que se deseja tratar.”
A tecnologia de diálise contínua e as plataformas de suporte multiorgânico beneficiam uma vasta gama de situações clínicas, dada a natureza complexa e sistêmica das patologias tratadas no ambiente de terapia intensiva. Além do tratamento da injúria renal aguda, a capacidade dessas plataformas de atuar em múltiplos órgãos expande seu uso significativamente:
- Manejo de pacientes críticos com choque, sepse e disfunção multiorgânica, condições que frequentemente demandam suporte simultâneo a diversos sistemas.
- Suporte cardíaco indireto, na remoção controlada de fluidos para aliviar a sobrecarga cardíaca e no manejo de pós-operatórios complexos, como após cirurgias cardíacas ou transplantes, reduzindo o risco de complicações.
- Suporte hepático para pacientes com insuficiência hepática aguda, enquanto pneumologistas podem otimizar a ventilação protetora com a remoção de gás carbônico.
- Troca plasmática para condições autoimunes e diversas doenças sanguíneas.
- Suporte artificial em Transplantes de órgãos (fígado, rim, coração, pulmão) – o emprego dessas terapias de suporte extracorpóreo visa a estabilização clínica do paciente e servem como ponte até o transplante.
Essa abrangência ressalta como as plataformas de suporte multiorgânico são ferramentas essenciais para diversas situações clinicas de alta complexidade na UTI, melhorando o prognóstico dos indivíduos mais vulneráveisii,[xiv].
“Casos de transplante complexos, como o de pacientes que recebem múltiplos órgãos, frequentemente exigem suporte de terapia contínua no pós-operatório imediato, devido ao risco elevado de inflamação e disfunção temporária de órgãos, como o rim”, destaca o especialista.
O valor do suporte especializado
No ambiente da UTI, a escolha de tecnologias especializadas para pacientes críticos é fundamental. Enquanto algumas soluções no mercado podem ser adaptações de aparelhos de diálise ambulatorial, as plataformas dedicadas ao cuidado intensivo são projetadas com membranas e sistemas desenvolvidos especificamente para as necessidades complexas e delicadas desses pacientes.
Essa diferenciação traduz-se em benefícios substanciais: redução do tempo de internação em UTI, diminuição da mortalidade e maior disponibilidade de leitos, representando um custo-benefício significativo para as instituições de saúde.
A pandemia de COVID-19 expôs a necessidade crítica e urgente de diálise contínua em pacientes com quadros graves, abrindo portas para a adoção generalizada do CRRT em muitos hospitais que, antes, dependiam unicamente da hemodiálise convencional – muitas vezes inadequada para pacientes tão instáveis[xv],[xvi]. “A pandemia evidenciou, globalmente, a importância de ter acesso a terapias como a diálise contínua para o paciente crítico,” afirma Lins.
Com um legado de inovação e um foco contínuo no paciente, a evolução das plataformas de suporte multiorgânico continuam a moldar o futuro dos cuidados intensivos, oferecendo esperança e melhores resultados para os pacientes mais vulneráveis.
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Sobre a Vantive
A Vantive é uma empresa especializada em terapias para órgãos vitais, com a missão de prolongar a vida e ampliar as possibilidades de pacientes e equipes médicas em todo o mundo. Há 70 anos, nossa equipe impulsiona inovações significativas no cuidado renal. Atualmente, os colaboradores, soluções e serviços da Vantive oferecem mais de um milhão de pontos de contato diários com pacientes em todo o mundo.
À medida que fortalecemos nosso legado, focamos em elevar a experiência da diálise por meio de soluções digitais e serviços avançados, ao mesmo tempo em que ampliamos nossa atuação para além do cuidado renal, investindo na transformação das terapias para órgãos vitais.
Nosso objetivo é oferecer terapias que se integrem de forma mais simples à prática dos profissionais de saúde e à vida dos pacientes. Mais flexibilidade e eficiência na administração das terapias para as equipes de cuidado, e vidas mais longas e plenas para os pacientes — é isso que a Vantive busca proporcionar.
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[i] KRAMER, Peter; WIGGER, Wolfgang; RIEGER, Johannes; MATTHAEI, Dieter; SCHELER, Fritz. Arteriovenous haemofiltration: a new and simple method for treatment of overhydrated patients resistant to diuretics. Klinische Wochenschrift, [s. l.], 1977.
[ii] KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements, 2012. Disponível em: https://kdigo.org/guidelines/acute-kidney-injury/. Acesso em: 11 fev. 2026.
[iii] VA/NIH ACUTE RENAL FAILURE TRIAL NETWORK. Intensity of renal support in critically ill patients with acute kidney injury. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 359, 2008.
[iv] RENAL REPLACEMENT THERAPY STUDY INVESTIGATORS. Intensity of continuous renal-replacement therapy in critically ill patients. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 361, 2009.
[v] MEHTA, Ravindra L.; McDONALD, Bruce; GABBAI, Fred B.; et al. A randomized clinical trial of continuous versus intermittent dialysis for acute renal failure. Kidney International, 2001.
[vi] UCHINO, Shigehiko; KELLUM, John A.; BELLOMO, Rinaldo; et al. Acute renal failure in critically ill patients: a multinational, multicenter study. JAMA, Chicago, v. 294, 2005.
[vii] RONCO, C., BELLOMO, R., & KELLUM J. A. Continuous renal replacement therapy: an update. Critical Care, 12(3), 209, 2008.
[viii] EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines on the management of acute (fulminant) liver failure. Journal of Hepatology, Amsterdam, v. 66, 2017.
[ix] EVANS, Laura; RHODES, Andrew; ALHAZZANI, Waleed; et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Intensive Care Medicine, Berlin, v. 47, 2021.
[x] DELLINGER, R. Phillip; BAGSHAW, Sean M.; ANAND, Inder; et al. Effect of targeted polymyxin B hemoperfusion on 28-day mortality in patients with septic shock and elevated endotoxin level (EUPHRATES): a randomized clinical trial. JAMA, Chicago, v. 320, 2018.
[xi] PADMANABHAN, Anand; CONNELLY-SMITH, Lisa; ABE, Takaaki; et al. Guidelines on the use of therapeutic apheresis in clinical practice – evidence-based approach from the American Society for Apheresis (ASFA): Ninth Special Issue. Journal of Clinical Apheresis, Hoboken, 2023.
[xii] COSTANZO, Maria Rosa; GUGLIN, Maya E.; SALERNO, Frank; et al. Ultrafiltration versus intravenous diuretics for patients hospitalized for acute decompensated heart failure. Journal of the American College of Cardiology, New York, v. 49, 2007.
[xiii] BART, Bradley A.; GOLDsmith, Steven R.; LEE, Karen L.; et al. Ultrafiltration in decompensated heart failure with cardiorenal syndrome. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 367, 2012.
[xiv] RONCO, C.; BELLOMO, R.; KELLUM, J. A. Acute kidney injury. The Lancet, London, v. 394, p. 1949-1964, 23 nov. 2019.
[xv] HIRSCH, Jamie S.; NG, James H.; ROSS, David W.; et al. Acute kidney injury in patients hospitalized with COVID-19. Kidney International, New York, v. 98, 2020.
[xvi] NADIM, Mitra K.; FORNI, Lui G.; MEHTA, Ravindra L.; et al. COVID-19–associated acute kidney injury: consensus report of the 25th Acute Disease Quality Initiative (ADQI) Workgroup. Nature Reviews Nephrology, London, v. 16, 2020.































