Uma pesquisa inédita de opinião pública na fronteira agrícola do Brasil mostra que dependência econômica não se converte em alinhamento político
São Paulo, junho de 2026 – A Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) apresenta o relatório “Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais”, resultado de uma pesquisa inédita de opinião pública nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil sobre temas de política internacional. O principal achado do relatório desafia uma premissa amplamente aceita: a de que a dependência comercial gera alinhamento político. A China absorveu 80% das exportações de soja e 86% das exportações de carne bovina da fronteira em 2022 — mas os moradores da região confiam substancialmente mais nos Estados Unidos.
Enquanto 21,8% dos entrevistados descrevem os EUA como “muito confiáveis”, apenas 12,6% dizem o mesmo da China — uma diferença de mais de 9 pontos percentuais. A confiança na China recuou quase 20 pontos percentuais desde 2017, mesmo com o crescimento dos volumes comerciais entre os dois países.
“A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes”, afirma Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores da pesquisa.
Regulação ambiental da UE: aceita, mas questionada
Em relação à União Europeia, os dados revelam uma postura de conformidade pragmática. Quase três quartos dos entrevistados (74,3%) concordam que cumprir os requisitos ambientais da UE fortaleceria a reputação internacional do Brasil. Ao mesmo tempo, 66,9% acreditam que a conformidade reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, e 61,5% entendem que as regulações servem principalmente aos interesses econômicos europeus.
Para os pesquisadores, as três avaliações coexistem sem se cancelarem: a fronteira aceita as regras da UE como o preço de acesso a um mercado valioso, mas não as endossa como expressão de valores compartilhados.
Uma região antiestatista
O relatório também traça o perfil político da região. Uma pluralidade de 83,5% dos moradores se identifica como de direita ou centro, enquanto apenas 16,5%, de esquerda. Maiorias expressivas acreditam que o governo interfere demais na vida das pessoas (55,9%) e que a regulação governamental dos negócios faz mais mal do que bem (64,3%).
Essa cultura política antiestatista, segundo os autores, é a lente por meio da qual todas as pressões externas são filtradas — e explica, em parte, tanto a vantagem de credibilidade dos EUA quanto o ceticismo em relação às regulações da UE e ao modelo de Estado chinês.
Implicações para a política externa brasileira
O estudo alerta que, à medida que o peso eleitoral da fronteira cresce — seus estados respondem por aproximadamente 15% do eleitorado nacional —, as preferências da região impõem restrições reais às posições que Brasília pode adotar de forma crível perante Washington, Pequim e Bruxelas.
“Uma política externa que presume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro individual interpreta equivocadamente a realidade da região”, afirma Spektor.
Metodologia
Foram 1.000 entrevistados em 70 municípios, e o estudo mapeou como os moradores da fronteira agrícola — região responsável por aproximadamente 25% das exportações brasileiras e USD 86,6 bilhões em 2025 — enxergam as grandes potências, as regras comerciais e os regimes regulatórios que estruturam suas vidas econômicas.
O relatório “Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais“ foi organizado pelo professor Matias Spektor (FGV RI), pelo pesquisador Guilherme N. Fasolin (Universidade de Vanderbilt) e por Enrico Recco (FGV RI). As opiniões expressas são dos autores e não refletem necessariamente as posições do financiador ou da FGV.
A pesquisa de campo foi conduzida entre 25 de outubro e 18 de novembro de 2025.
O relatório completo está disponível no anexo 1.p anexo 2.pdf df
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