Muito além da força produtiva que consagra Mato Grosso como potência nacional do agronegócio, existe um estado rico em identidade, belezas naturais e memória histórica. Esse potencial ganha contornos únicos na Região Oeste e no Vale do Guaporé, onde o Pantanal, os rios, a pesca esportiva, a cultura e a religiosidade se encontram. O grande desafio é transformar essa riqueza em políticas públicas capazes de gerar emprego e renda para o povo mato-grossense.
Os números oficiais mais recentes mostram que o turismo estadual deixou de ser apenas potencial. Em 2025, Mato Grosso recebeu mais de 1,5 milhão de turistas, incluindo cerca de 45 mil visitantes estrangeiros. A arrecadação de ICMS das atividades ligadas ao setor também cresceu 203% em cinco anos, saltando de R$ 31,1 milhões em 2020 para R$ 94,3 milhões em 2024. No mesmo período, o segmento se consolidou como gerador de empregos, com mais de 2 mil postos formais criados em 2024.
Contudo, o contraste entre o crescimento estadual e a realidade local fica evidente em Cáceres. Banhada pelo Rio Paraguai, a cidade possui centro histórico tombado pelo Iphan e sedia o tradicional Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPe), um dos maiores eventos de pesca em água doce do mundo. No entanto, embora reúna identidade e vocação, o município ainda sofre com a oscilação de público fora dos grandes eventos. O caminho é estruturar essa força para que o turismo se traduza, de forma regular, em desenvolvimento, oportunidades e melhoria de vida para a população.
Avançando pelo território, o Vale do Guaporé revela Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso. O município une memória colonial, trilhas e cachoeiras, guardando parte fundamental da formação histórica do Estado. No Parque Estadual Serra Ricardo Franco estão paisagens impressionantes, como os paredões e a imponente Cachoeira do Jatobá, considerada a maior de Mato Grosso.
Cidades vizinhas como Pontes e Lacerda, Mirassol d’Oeste, Araputanga, São José dos Quatro Marcos, Rio Branco e Salto do Céu também possuem atrativos e oportunidades singulares, reforçando que o turismo regional precisa ser pensado e trabalhado em rede. Quando um município se fortalece, toda a cadeia se movimenta: hotéis, restaurantes, guias, transporte, artesanato, eventos, gastronomia e agricultura familiar.
Jauru, que já atraía fiéis pela história do Padre Nazareno Lanciotti, ganhou projeção nacional com sua beatificação, realizada no dia 13 de junho. Em um país onde o mercado da fé movimenta R$ 15 bilhões por ano, segundo o Ministério do Turismo, o município consolida-se como rota permanente de peregrinação. Locais como a Igreja Matriz, o Memorial, o Santuário Imaculado Coração de Maria e a Sala do Martírio desenham um roteiro capaz de movimentar a economia regional o ano todo.
Embora os destinos naturais da região atraiam olhares de fora, muitos mato-grossenses ainda não conhecem as riquezas do próprio estado. Democratizar esse acesso é também fortalecer o sentimento de pertencimento e o orgulho pela nossa terra. Com 61 municípios integrados ao Mapa do Turismo Brasileiro, Mato Grosso tem um direcionamento importante para suas políticas públicas, mas o avanço real no Oeste exige investimentos mais consistentes em infraestrutura viária, sinalização turística, capacitação profissional, segurança e divulgação.
Defender o turismo no Oeste de Mato Grosso é defender o desenvolvimento sustentável. É olhar para a cultura, a fé, a história e a natureza como instrumentos de emancipação econômica. A região tem muito a mostrar ao Brasil e ao mundo, mas, acima de tudo, precisa ser mais acessível e valorizada pelo próprio povo mato-grossense.
*Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT.






























