Período passa a integrar a formação cultural dos alunos e foca em diferentes manifestações brasileiras
No calendário escolar, o período das festas juninas tem deixado de se limitar às apresentações de quadrilha para assumir um papel mais amplo na formação cultural dos alunos. A mudança acompanha a percepção das famílias, dado que nove em cada 10 brasileiros com filhos de até 18 anos reconhecem a importância dessas práticas no desenvolvimento de crianças e adolescentes, segundo o Observatório Fundação Itaú. Nesse cenário, escolas como o Gracinha, situada em São Paulo, organizam a proposta como um percurso pedagógico que articula diferentes manifestações culturais brasileiras.
Na prática, o trabalho começa ainda no início do segundo trimestre, com planejamento conjunto entre diferentes áreas. Professores de Corpo e Movimento, Artes, Música, Língua Portuguesa, Inglês e equipes de sala definem, em diálogo, as manifestações que serão abordadas e como se conectam aos projetos pedagógicos. “A gente alinha propostas que dialogam com os projetos de sala, pensando numa manifestação interdisciplinar”, explica a professora Vanessa Freitas, responsável por Corpo e Movimento na Educação Infantil e nos Anos Iniciais.
A proposta parte da ampliação de repertório. “A ideia é trabalhar manifestações culturais que transcendam a quadrilha, mais conhecida no período junino”, afirma. Esse desenho se reflete na divisão por série, permitindo percorrer diferentes expressões ao longo da trajetória escolar. “Cada série trabalha uma manifestação, para que a gente consiga abarcar o máximo da nossa cultura”, diz.
Na Educação Infantil, o percurso se conecta aos temas trabalhados em sala. A partir de um projeto sobre o céu, por exemplo, os alunos entram em contato com referências da cultura nordestina, como a música “Olha pro céu”, de Luiz Gonzaga, além de manifestações como a piaba e a ciranda. “São propostas que desenvolvem coordenação, socialização e convivência, em uma fase em que eles estão aprendendo a estar em grupo”, explica Vanessa.
Nos anos iniciais, o repertório se amplia. O coco de roda aparece como prática marcada pela percussão e pela coletividade, enquanto o jongo, no 4º ano, introduz elementos de memória e identidade do povo negro. “O jongo é um dos pilares que influenciou o nascimento do samba carioca”, afirma. Já no 5º ano, o carimbó leva para a escola referências da região Norte. “É uma manifestação ligada à pesca, aos rios e às lendas, muito representativa da Amazônia”, diz.
O trabalho não se restringe à execução das danças. Há um percurso de contextualização que envolve história, música, figurino e origem das manifestações. “A gente não trabalha só o executar. Existe um estudo prévio, um entendimento de como aquele movimento surgiu e o que ele representa”, completa Vanessa.
Percurso cultural
Nos anos finais do Ensino Fundamental, o projeto ganha novos desdobramentos. Ao assumir a disciplina de Corpo e Movimento, o professor Eduardo Massuda encontrou um modelo baseado em apresentações padronizadas. “Havia uma tradição de flash mob e quadrilha para todos os anos”, relata. A partir disso, iniciou, junto à equipe pedagógica, um processo de reformulação. “A gente passou a pensar novas possibilidades e a trazer manifestações que dialogassem com o projeto de cada série”, afirma.
No 6º ano, a proposta se concentra na dança de fitas e na ciranda, com ênfase na coletividade. “A dança de fitas parte de um mastro com fitas azuis e brancas em homenagem à água, tema trabalhado com a turma”, explica. A participação das famílias também é incorporada. “A última ciranda acontece com as famílias, depois das apresentações”, explica.
O teatro passa a integrar o percurso no 7º ano, a partir de uma releitura de “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna. A atividade envolve diferentes áreas e introduz elementos da cultura popular nordestina. “O texto traz uma valorização da comunicação e do povo do sertão”, afirma Eduardo. Após a encenação, os alunos entram em contato com o xaxado e, em seguida, com uma quadrilha tradicional.
Já no 8º ano, a catira orienta o trabalho com percussão corporal e criação coletiva. Os estudantes desenvolvem sequências em grupo estruturadas como desafios, sem caráter competitivo, com foco na experiência compartilhada. O percurso se aprofunda no 9º ano com o maculelê, explorado a partir de seus aspectos históricos e rítmicos. A atividade inclui a participação de um convidado externo, que apresenta os fundamentos da prática. “Ele traz o contexto, o histórico e as movimentações, e a gente constrói uma releitura com os alunos”, afirma Eduardo.
Ao longo de todo o processo, a orientação é trabalhar a partir de releituras, sem perder o respeito às origens. “A gente não dança como em determinadas regiões. É uma ressignificação dentro da nossa realidade, mas com valorização”, conclui.
Sobre Vanessa Freitas
Professora de Corpo e Movimento na Escola Gracinha, em São Paulo, atuando na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Graduada em Educação Física e em Pedagogia. Pós-graduada em Fisiologia Humana e do Exercício para Doenças Crônicas e Populações Especiais, com pesquisa em Medicina do Sono e Transtorno do Espectro Autista (TEA) pela Universidade Federal de São Paulo (Escola Paulista de Medicina).
Sobre Eduardo Massuda
Professor de Corpo e Movimento na Escola Gracinha, em São Paulo, atuando nos Anos Finais do Ensino Fundamental. Graduado em Educação Física pela UniFMU e em Pedagogia pela UniNove. Pós-graduado em Educação Física Escolar pela UniFMU e em Convivência Ética na Escola pelo ISE.
Sobre a Escola Gracinha
A Escola Gracinha é mantida pela Associação Pela Família, uma organização sem fins lucrativos, que alia tradição e inovação para formar estudantes críticos, criativos e conscientes. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, valoriza o protagonismo, a colaboração e os aprendizados significativos, em uma comunidade acolhedora e comprometida com a construção de um mundo mais justo e sustentável.
































