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Fotógrafo cuiabano transforma Cerrado em projeto de vida ao registrar beleza e destruição da savana brasileira há quatro anos

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Da Redação – Bruna Barbosa

Crédito: Lucas Ninno

Há pelo menos quatro anos, o fotógrafo cuiabano Lucas Ninno percorre diferentes regiões do Cerrado para registrar a biodiversidade, as paisagens e as transformações provocadas pela ação humana no bioma. A relação com o Cerrado, porém, começou ainda na infância, durante viagens com a família e, principalmente, com o avô. Chapada dos Guimarães, rio Coxipó e rio Manso estavam entre os destinos frequentados por Lucas nos momentos de lazer para enfrentar o calor de Cuiabá.

“Eu já ia me aproximando do Cerrado, aprendendo a gostar daquela vegetação estranha, das árvores tortas, via os animais. Então vem dessa relação de berço mesmo”, conta ao Olhar Conceito.

A fotografia entrou na história quando ele tinha mais ou menos 20 anos, época em que começou a trabalhar em jornais locais de Cuiabá. A natureza já aparecia em seus registros, mas ainda como uma atividade ligada à beleza das paisagens.

A mudança aconteceu em 2022, quando Lucas recebeu apoio da National Geographic Society para desenvolver um projeto mais estruturado sobre o Cerrado. O trabalho durou dois anos, mas, ao final, ele percebeu que não queria encerrar a documentação.

“Primeiro porque a cada vez que ando pelo Cerrado vejo o quão pouco ainda conhecemos dele, segundo porque a velocidade com que estamos destruindo esse bioma é assustadora. Então eu decidi não encerrar essa missão, que virou projeto de vida”, afirma.

Para Lucas, parte da riqueza do Cerrado permanece escondida para quem observa o bioma apenas de passagem. Durante a infância, ele também ouviu a ideia de que a vegetação seria menos exuberante do que a de outros biomas brasileiros.

“Costumo dizer que o Cerrado é um bioma para ver de perto. Eu cresci ouvindo o seguinte: o Cerrado é uma natureza mais feia, mirrada, aquelas árvores tortas, não é exuberante como o Pantanal ou a Amazônia”, lembra.

A experiência como fotógrafo, porém, mudou essa percepção. Cavernas, formações geológicas, animais e a própria capacidade de regeneração após o fogo passaram a revelar um cenário muito mais complexo.

“As coisas mais fascinantes estão um pouco mais escondidas, como o mundo subterrâneo do Cerrado, que é fantástico, com cavernas estupendas, ou formações geológicas raras como as chaminés de fada, ou a resiliência dele ao fogo”, afirma.

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Para ele, conhecer o bioma exige abandonar uma visão superficial e assumir uma postura de curiosidade diante da paisagem.

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Lucas Ninno nasceu e foi criado em Cuiabá. (Foto: Lucas Ninno)

Chaminés de fada marcaram trajetória

Entre todos os registros feitos durante os anos de trabalho, um dos momentos mais marcantes foi a expedição que revelou as chamadas chaminés de fada, formações geológicas raras encontradas no Nordeste de Goiás. A experiência também fez Lucas repensar a própria ideia de “descoberta”. Segundo ele, o conhecimento sobre um lugar normalmente é construído de forma coletiva, envolvendo moradores, pesquisadores e fotógrafos.

No caso das chaminés, a história começou com Seu Domingos, proprietário da área que conhecia as formações desde criança e ajudou a preservá-las. Depois, fotografias amadoras chegaram ao celular da geóloga Joana Sanchez, que liderou a expedição da qual Lucas participou.

Uma das imagens produzidas pelo fotógrafo, feita durante a noite, ajudou a ampliar a repercussão sobre as formações. “Essa história de ‘descoberta’, às vezes é meio mal contada. A maioria delas é um processo lento e coletivo, que envolve várias pessoas”, explica.

Segundo Lucas, até a produção da fotografia envolveu uma equipe que acampou na região para viabilizar o registro. “Nada se faz sozinho, é tudo feito por um grupo”, afirma.

Ao mesmo tempo em que registra paisagens preservadas, o fotógrafo acompanha de perto a transformação do Cerrado. Como costuma retornar aos mesmos locais, consegue perceber mudanças que aparecem diretamente na paisagem.

“Muitas vezes percebo uma nova área que foi desmatada. Ou me preparo para fazer uma foto em uma paisagem muito especial, e quando chego lá, tem uma mancha de desmatamento acabando com a beleza da região”, relata.

Para Lucas, a fragmentação do bioma também se torna evidente durante os deslocamentos. Ele conta que percorre milhares de quilômetros e passa longos trechos sem encontrar áreas preservadas, até chegar a parques nacionais ou reservas indígenas.

A percepção acompanha os dados sobre a degradação do Cerrado. Segundo o fotógrafo, o bioma registra há pelo menos três anos taxas de desmatamento superiores às da Amazônia.

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Mas o trabalho também registra mudanças positivas. Ele cita iniciativas de comunidades locais voltadas à preservação e recuperação da vegetação, além do crescimento do ecoturismo.

Para ele, aproximar as pessoas da natureza pode contribuir para aumentar o vínculo com o território, desde que a busca pelos lugares não se limite à produção de uma fotografia para as redes sociais.

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Fotógrafo foi responsável por registrar ‘Chaminés de Fada’. (Foto: Lucas Ninno)

Proximidade vai além da distância

Na avaliação de Lucas, viver perto do Cerrado não significa necessariamente ter uma relação próxima com ele. Para que exista uma conexão capaz de contribuir para a conservação, é necessário conhecer e criar vínculos afetivos com os ambientes naturais.

“Quem cresce tomando banho de rio não quer ver aquele rio sujo. Só que muitas vezes mesmo quem vive perto do rio está desconectado dele”, afirma.

Ele também aponta fatores como o acesso aos ambientes naturais preservados e a maneira como a sociedade enxerga a natureza.

“É como se ela estivesse ao nosso serviço e fosse nosso direito explorá-la”, diz.

O fotógrafo defende uma visão em que a natureza seja reconhecida como algo que merece existir independentemente de sua utilidade para os seres humanos.

Mesmo depois de anos percorrendo o Cerrado e de ter participado de uma expedição que ganhou repercussão nacional, Lucas diz que está longe de considerar o projeto concluído. “Quanto mais ando, mais longe fico de terminar”, resume.

A sensação de que ainda existem áreas pouco conhecidas, segundo ele, é justamente o que mantém o projeto vivo. Apesar da degradação acumulada nas últimas décadas, ainda existem regiões preservadas que despertam sua curiosidade.

Os próximos passos são justamente continuar documentando esses lugares e usar a fotografia para aproximar outras pessoas da riqueza do bioma. “Meus próximos passos são documentar essas regiões para continuar inspirando as pessoas a enxergar nesse mesmo bioma onde nasci um pouco da beleza e do mistério que vejo”, afirma.

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