O magistrado que os advogados não esquecemO magistrado que os advogados não esquecemO magistrado que os advogados não esquecemO magistrado que os advogados não esquecem
Claudionor Miguel Abss Duarte, 78, tem uma história profissional e humana que deixou marcas profundas na advocacia e na Justiça sul-mato-grossense – (Foto: Arquivo)

Há homens cuja trajetória ultrapassa os limites do currículo e se transforma em patrimônio moral de uma geração. Claudionor Miguel Abss Duarte é um desses nomes raros. Ando com saudade desse grande homem do Direito, hoje com 78 anos, cuja história profissional e humana deixou marcas profundas na advocacia e na Justiça sul-mato-grossense.

Homem de enorme experiência, credibilidade sólida e reputação construída no trabalho sério, Claudionor jamais precisou de artificialismos para ser respeitado. Sempre foi reconhecido pela técnica jurídica, postura equilibrada e capacidade de ouvir com sinceridade. Daqueles profissionais cuja autoridade nasce naturalmente do conhecimento e da coerência de vida.

Sua formação acadêmica já anunciava a dimensão do jurista que viria a se tornar. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tradicional escola responsável pela formação de grandes nomes do Direito nacional. Também exerceu o magistério, lecionando em universidades de Mato Grosso do Sul.

Antes de enobrecer o Judiciário como desembargador durante 35 anos – até sua aposentadoria aos 75 anos –, já era advogado de enorme destaque. Chegou ao Tribunal pelo quinto constitucional da OAB e foi um dos maiores representantes da advocacia que já ocuparam cadeira no Tribunal de Justiça. Entre os advogados, deixou enorme saudade, até os dias atuais. Sempre recebeu a classe com presteza, educação e franqueza, sem formalismos desnecessários. Sabia ouvir, orientar e decidir com independência, mas sem jamais perder a humanidade. É inesquecível a atuação que teve nas áreas cível e criminal.

Sua trajetória institucional impressiona pela dimensão e relevância. No Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, exerceu funções de enorme destaque: foi corregedor-geral de Justiça, presidente e também decano da Corte. Na Justiça Eleitoral, atuou como vice-presidente, corregedor e presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, desempenhando funções de elevada responsabilidade institucional.

Leia Também:  Pilates no Jardim une saúde e solidariedade no Sesc Arsenal

Também teve papel relevante na estruturação administrativa do Estado. Foi o primeiro Procurador de Assuntos Administrativos de Mato Grosso do Sul, ocupou a Secretaria de Estado do Interior e Justiça e chegou, inclusive, a assumir interinamente o cargo de governador do Estado em 2006. Paralelamente, presidiu a Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul, consolidando uma trajetória singular: advogado respeitado, magistrado admirado, professor querido e homem público de reconhecida seriedade.

Foi um grande nome da Justiça estadual, integrante de uma linhagem de juristas que ajudaram a construir o respeito institucional do Judiciário sul-mato-grossense. Pertence à mesma tradição de magistrados importantes como Jesus de Oliveira Sobrinho, Carlos Stephanini, Nelson Mendes Fontoura, Marco Antonio Cândia, José Augusto de Souza, João Carlos Brandes Garcia, Gilberto da Silva Castro e Julizar Barbosa Trindade – homens que compreendiam o Direito não como instrumento de vaidade, mas como missão pública.

Além da atuação jurídica exemplar, Claudionor também construiu respeitado nome na pecuária. Produtor de renome, sempre demonstrou o mesmo perfil trabalhador e disciplinado que marcou sua vida profissional. Homem de rotina firme, daqueles que o sol raramente encontra na cama. Gente formada no trabalho diário, na responsabilidade e no compromisso com a palavra dada.

Poucos profissionais influenciaram tantas carreiras de forma tão silenciosa e profunda. Eu sou um deles. Devo muito a esse grande homem. Foi ele quem me sugeriu a realização do mestrado em Direito Constitucional pela PUC-SP, o que transformou minha vida. Talvez ele jamais tenha imaginado o quanto aquela orientação repercutiria na minha vida acadêmica e profissional. Foi ele quem me indicou para ser juiz do TRE-MS. Com ele sempre tive conversas importantes sobre o Direito, a profissão e a vida. Conversas inteligentes, francas e humanas.

Leia Também:  Exposição "O Brasil na Era dos Dinossauros" é a mais nova atração do Sesc Salgadeira

A vida ainda me concedeu uma das maiores honras profissionais: defender seus direitos. Poder atuar como advogado de alguém que sempre admirei, respeitei e tive como referência humana e jurídica foi motivo de enorme alegria e profundo orgulho pessoal. Mais do que um trabalho jurídico, foi a oportunidade rara de retribuir, com dedicação e lealdade, parte de tudo aquilo que dele recebi ao longo da vida. E fazê-lo com êxito tornou esse momento ainda mais significativo, daqueles que permanecem na memória não apenas pela vitória alcançada, mas pelo valor humano e afetivo que carregam.

Ontem julgador respeitado; hoje, novamente advogado – e dos grandes. Claudionor Miguel Abss Duarte continua sendo referência de técnica, dignidade e humanidade para toda uma geração do Direito. E, acima de tudo, permanece sendo daqueles amigos raros que a vida oferece como verdadeira dádiva. Privar de sua amizade é privilégio que o tempo apenas faz valorizar ainda mais.

Estas linhas são dedicadas à saudade. Saudade da convivência, das conversas boas e tranquilas, dos conselhos sinceros e da presença serena de um homem que sempre soube honrar a profissão, a amizade e a própria vida pública. Mas é uma saudade boa, daquelas que nascem do respeito, da admiração e da gratidão. Tudo, felizmente, encontra remédio numa boa e nova conversa, capaz de fazer o tempo parecer menor e a amizade ainda mais valiosa.

(*) O autor é advogado e professor de direito constitucional.