Na prática, isso significa que pacientes na faixa dos 40 anos, e, em alguns casos, até mais jovens, passaram a procurar avaliação para lifting facial com queixas que, até pouco tempo atrás, eram características de pessoas acima dos 60 anos.
Essa é uma mudança importante. O envelhecimento facial e o emagrecimento sempre coexistiram, mas raramente caminhavam na mesma velocidade. Os agonistas do GLP-1 alteraram esse ritmo. Ao promoverem uma perda de gordura intensa em um curto intervalo de tempo, reduziram também uma estrutura fundamental para a sustentação da face. Sem esse suporte, surgem sulcos mais evidentes, perda da definição do contorno facial, flacidez é um aspecto envelhecido que nem sempre corresponde à idade do paciente.
Os números mostram que esse não é um fenômeno isolado, segundo o Instituto Locomotiva, divulgado em fevereiro de 2026, a presença das chamadas canetas emagrecedoras nos lares brasileiros passou de 26% para 33% em poucos meses. Hoje, um em cada três domicílios possui ao menos um usuário desse tipo de medicamento. Entre os adultos, 24% já utilizaram essas terapias, e nove em cada dez afirmam que pretendem retomá-las.
Era natural que essa transformação chegasse também à cirurgia plástica. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica observa um aumento da procura por lifting facial entre pacientes mais jovens, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery o Brasil realizou 121.494 procedimentos em 2024. Mais do que um crescimento da demanda, esses números revelam uma mudança no perfil dos pacientes.
A cirurgia plástica não trata certidões de nascimento. Trata tecidos.
Quando existe perda importante de volume associada ao excesso de pele e ao deslocamento das estruturas profundas da face, a indicação deve considerar a anatomia daquele indivíduo, e não o número de aniversários que ele comemorou.
Também é preciso desfazer outro conceito ultrapassado: o facelifting moderno está longe de significar apenas retirar pele. A técnica atual reposiciona músculos, ligamentos e compartimentos de gordura, restaurando os contornos faciais de maneira natural. O objetivo não é mudar a identidade do paciente, mas devolver equilíbrio à arquitetura da face.
Há ainda uma responsabilidade que antecede qualquer procedimento estético. Antes de discutir técnicas cirúrgicas, é indispensável compreender as razões do emagrecimento, avaliar se o tratamento medicamentoso está sendo conduzido de forma adequada e confirmar que o paciente apresenta estabilidade clínica. Nos usuários de agonistas do GLP-1, isso inclui protocolos específicos no planejamento pré-operatório, como a suspensão temporária da medicação, medida fundamental para reduzir riscos anestésicos.
Os medicamentos para perda de peso transformaram o tratamento da obesidade e representam um dos maiores avanços recentes da medicina. Ao mesmo tempo, criaram uma nova realidade para a cirurgia plástica. Se antes o tempo era o principal protagonista do envelhecimento facial, hoje ele divide espaço com mudanças metabólicas capazes de alterar profundamente a anatomia da face.
Compreender essa nova equação é o que permitirá oferecer tratamentos mais seguros, individualizados e coerentes com a realidade de cada paciente.
*é cirurgião plástico (CRM-MT 7056 / RQE 2799), mestre em Cirurgia Plástica pela Unifesp e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Presidiu a Regional Mato Grosso da SBCP em duas gestões e é pioneiro na realização do Deep Plane Facelift em Mato Grosso, técnica considerada uma das maiores evoluções da cirurgia de rejuvenescimento facial por proporcionar resultados mais naturais. Em 2025, inaugurou, ao lado da esposa, Fabiane, a Clínica Ária, no bairro Santa Rosa, em Cuiabá.
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