Quase 50 mil pessoas aguardam a doação de um órgão no Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes
|
Cuiabá (MT) – A campanha “Setembro Verde” reforça a importância da doação de órgãos e tecidos, um ato generoso que pode salvar vidas e restaurar a saúde de milhares de pessoas. No ano passado, o Brasil registrou 4.335 doadores efetivos, o que representa uma taxa de 20,3 doadores por milhão de população (pmp) – o maior número de doadores de órgãos já registrados na história do país. Enquanto isso, 49.489 mil brasileiros aguardam na fila de transplantes, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes. Apesar de muitas doações serem obtidas de doadores falecidos, no Brasil, é possível ser doador de órgãos e tecidos durante a vida, sem limite de idade máxima, o que possibilita a doação por parte de pessoas idosas [com idade igual ou superior a 60 anos].
De acordo com a enfermeira especialista em doação de órgãos e transplantes, e chefe do Setor de Cuidados Especializados do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM-UFMT/HU Brasil), Graziele Jacob Pimenta, a avaliação de um potencial doador é individualizada e varia de acordo com o órgão ou tecido que se pretende doar. “Não se analisa apenas a idade ou a aparência do órgão. São considerados, entre outros fatores, a função do órgão, sua anatomia, qualidade estrutural, presença de doenças prévias, possibilidade de transmissão de infecções ou neoplasias, compatibilidade com o receptor e, quando aplicável, tamanho e características anatômicas do enxerto”, assinala.
Doadores idosos passam por análise ainda mais rigorosa
A pessoa idosa passa pelo mesmo processo de avaliação de qualquer doador vivo, porém, a análise tende a ser ainda mais cuidadosa em relação à reserva fisiológica e a prováveis riscos futuros decorrentes da retirada do órgão. “Além dos exames específicos do órgão em si podem ser avaliados a função cardiovascular e pulmonar, a função renal e hepática, a pressão arterial, o metabolismo da glicose, a presença de doenças crônicas, o histórico ou risco de câncer, infecções, estado nutricional, capacidade funcional e risco anestésico-cirúrgico”, aponta a profissional.
Também é fundamental verificar se o idoso possui capacidade para compreender o procedimento, seus possíveis riscos e consequências, e garantir que sua decisão está sendo tomada de maneira livre, sem pressão familiar, emocional ou financeira.
Quais órgãos podem ser doados em vida
Em casos de doação em vida, há um princípio fundamental: a segurança do doador vem em primeiro lugar. Logo, além de avaliar se o órgão é adequado para o receptor, a equipe médica envolvida no transplante precisa determinar se a retirada dele pode ser realizada sem expor o doador a riscos considerados inaceitáveis, seja a curto ou longo prazo.
Segundo Graziele, uma pessoa viva pode, em determinadas condições, doar um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão e células-tronco hematopoéticas ou medula óssea.
Quando se trata de pessoas idosas, a possibilidade e o risco da doação precisam ser analisados órgão a órgão e pessoa a pessoa. “O conceito mais adequado é avaliar a idade biológica e a reserva funcional, e não simplesmente a idade cronológica. Duas pessoas de 65 anos podem apresentar condições de saúde completamente diferentes e, consequentemente, riscos muito diferentes para uma cirurgia de doação”, destaca Graziele.
A regulamentação atual do Sistema Nacional de Transplantes determina avaliação clínica rigorosa, análise de antecedentes pessoais, doenças prévias, medicamentos e hábitos de vida, além de exames laboratoriais para doenças transmissíveis. Para rim, fígado e pulmão provenientes de doadores vivos em geral, a legislação exige investigação clínica, laboratorial e por imagem e que o candidato esteja em condições satisfatórias de saúde.
É importante enfatizar que os critérios são diferentes para cada órgão. Em um potencial doador de rim, a reserva da função renal, presença de hipertensão, diabetes, proteinúria e alterações anatômicas têm grande importância. Para fígado, além da saúde geral, avaliam-se função hepática, anatomia vascular e biliar, e o volume do fígado que permanecerá no doador. No caso de pulmão, a função pulmonar e a anatomia assumem importância especial. Logo, não existe uma avaliação única que seja aplicável a todos os órgãos e tecidos.
Entre as possibilidades de doação de órgãos sólidos em vida, a avaliação de candidatos mais velhos pode ser considerada com maior frequência para rim. “Uma pessoa saudável pode viver com apenas um e existe grande experiência clínica acumulada na avaliação e acompanhamento de doadores renais vivos. Ainda assim, em um idoso, é especialmente importante estimar não apenas a função renal atual, mas qual será sua reserva renal ao longo dos anos”, observa a especialista.
A idade ainda é um fator relevante
De maneira isolada, a idade avançada não representa uma exclusão automática para toda e qualquer doação em vida, já que a legislação atual não estabelece uma única idade máxima que possa ser aplicada indistintamente a todas as modalidades de doação em vida. Porém, à medida que uma pessoa envelhece, há maior probabilidade de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, redução da reserva renal, alterações hepáticas, neoplasias e menor reserva fisiológica. Assim, um candidato de idade avançada pode necessitar de investigação ainda mais detalhada.
Graziele informa, ainda, que o próprio Ministério da Saúde esclarece que o que determina a viabilidade de um órgão para transplante é, sobretudo, o estado de saúde do doador, embora existam restrições de idade em situações específicas. “Mas falar em um limite de idade máxima para doação sem especificar qual órgão, qual tecido e em qual modalidade de transplante pode levar a uma informação incompleta ou equivocada. A pessoa que doa não é um paciente que precisa daquela cirurgia, está saudável e se submete ao procedimento em benefício de outra pessoa. Por essa razão, a avaliação do doador deve ser extremamente criteriosa, individualizada e independente, preservando sua segurança, autonomia e liberdade de decisão”, relata.
Papel da família ou rede de apoio
Na doação em vida de uma pessoa adulta e juridicamente capaz, a decisão pertence ao próprio doador. A Lei nº 9.434/1997 estabelece que o doador deve autorizar especificamente o órgão, tecido ou parte do corpo que será retirado e pode revogar sua decisão a qualquer momento antes da concretização da doação. “Naturalmente, a família pode exercer um importante papel de apoio emocional e no cuidado durante a recuperação, mas não deve substituir a autonomia de um idoso que tenha plena capacidade de decisão”, ressalta a enfermeira.
Quanto ao vínculo com o receptor, a legislação permite a doação para cônjuge ou parentes consanguíneos até o quarto grau. Quando o receptor não possui esse vínculo com o doador, há necessidade de autorização judicial, além das demais avaliações previstas pelo Sistema Nacional de Transplantes. A exceção legal é a doação de medula óssea.
De acordo com Graziele, essa questão é diferente da doação após a morte, situação em que a legislação brasileira prevê a participação da família na autorização da retirada de órgãos e tecidos. “É importante não aplicar essa regra da doação post mortem à pessoa idosa, que está conscientemente decidindo realizar uma doação em vida”, conclui.
Sobre a HU Brasil
O HUJM-UFMT integra a HU Brasil desde novembro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
































