De licença médica remunerada a ajustes de conforto térmico, companhias no Brasil começam a tratar o climatério como pilar estratégico de saúde corporativa e equidade de gênero
O calor repentino no meio de uma apresentação no trabalho, a névoa mental que pode interferir na entrega de um projeto e a falta de abertura para falar sobre o assunto, impedindo o pedido de ajuda. Diariamente, milhares de mulheres no auge de suas carreiras corporativas enfrentam desafios invisíveis contra a menopausa – um processo natural que, por décadas, foi o tabu mais bem guardado dos escritórios. Mas a barreira desse silêncio corporativo finalmente começou a ruir.
Os sintomas do climatério, que impactam diretamente o bem-estar físico e emocional das profissionais, começam a receber a devida atenção no ecossistema corporativo. Longe de ser apenas um debate de saúde, o acolhimento a essas mulheres tornou-se uma métrica de sustentabilidade organizacional e retenção de talentos femininos.
Em uma iniciativa inédita no mercado brasileiro, a Astellas Farma Brasil estabeleceu uma Política de Licença Menopausa. O benefício concede até cinco dias de folga remunerada por ano para profissionais que estejam enfrentando sintomas no período, necessitando apenas de uma comprovação médica. A folga pode ser usufruída de forma contínua ou fracionada.
“Sentir que a empresa nos enxerga de verdade traz um alívio imenso”, relata Aline Shirazi, gerente de Treinamentos da Astellas Farma. Aline chama atenção para a necessidade de desmistificar a idade relacionada ao processo. “Muitas vezes sou considerada ‘jovem demais’ para esse momento, mas os sintomas, como as fortes ondas de calor, são reais e desafiadores na rotina de reuniões. Saber que posso contar com esse suporte legal me dá uma segurança tremenda para focar na minha saúde quando preciso.”
Para além do descanso, a Astellas investe em uma rede holística: o programa Embaixadores da Menopausa, um comitê interno para propor melhorias diárias – que vão do fornecimento de lenços umedecidos à flexibilização de jornadas –, suporte psicológico e descontos de até 70% em medicamentos prescritos. Em 2024, a empresa lançou o ‘Compromisso para Defender um Local de Trabalho Inclusivo para a Menopausa’, uma iniciativa global que visa capacitar todos na empresa a quebrar o estigma associado à menopausa e criar uma cultura de compreensão, inclusão e apoio.
Para Emerson Silva, gerente regional de Vendas da farmacêutica, o envolvimento das lideranças masculinas é peça-chave na mudança cultural. “O processo educativo, especialmente voltado aos homens que lideram equipes, é o que de fato destrói o estigma. O suporte correto garante que a profissional mantenha sua alta performance sem abrir mão do seu bem-estar”, pondera.
Dignidade acima das métricas de produtividade
Na siderúrgica Gerdau, o assunto ganhou escala através dos grupos internos de afinidade focados em gênero e gerações. O resultado foi o lançamento do Projeto Ciclos, desenhado para dar suporte integral aos cerca de 25% do quadro de colaboradoras brasileiras que atravessam essa fase de transição.
A empresa estruturou um hub de atendimento multidisciplinar, conectando as funcionárias a psicólogos, médicos e nutricionistas para consultas virtuais e rodas de partilha.
Se os sintomas físicos incluem picos de temperatura, a resposta corporativa também precisa passar pela engenharia estrutural. A Nestlé, estimando que cerca de 30% de seu time feminino esteja vivenciando as etapas da menopausa, uniu conscientização à reforma de espaços.
Além de lançar o seu Guia Global para Menopausa no Trabalho, focado em letramento de lideranças, a empresa promoveu melhorias diretas na climatização e no conforto térmico de suas plantas corporativas e industriais. Em paralelo, o Programa Viver Bem disponibiliza uma jornada de 11 encontros virtuais dedicados a profissionais entre 40 e 60 anos, focando na alimentação e saúde preventiva.
Na mesma linha de flexibilidade estrutural, a Diageo (gigante do setor de bebidas) trouxe para o Brasil o manual Prosperar com a Menopausa. O guia capacita gestores a eliminar barreiras diárias enfrentadas pelas colaboradoras por meio de ações extremamente práticas.
Dentre as recomendações do guia da Diageo estão a flexibilização do dress code (com adaptações ergonômicas nos uniformes), ajustes finos na ventilação dos escritórios, gestão empática de ausências de curto prazo e canais de diálogo estritamente confidenciais entre as profissionais e seus gestores diretos.
O raio-x do silêncio: os dados por trás do estigma
O movimento das companhias para criar essas redes de apoio não é fruto do acaso. Ele responde a uma realidade estatística desafiadora, evidenciada pelo estudo global Experiência e Atitudes na Menopausa[i], encomendado pela Astellas Farma. Realizada com 13.800 participantes em mais de seis países, incluindo o Brasil, a pesquisa expõe a discriminação e o impacto na carreira de profissionais maduras.
De acordo com o levantamento, quase metade das brasileiras (47%) experimenta algum reflexo negativo em sua rotina profissional ao entrar nessa fase da vida. Esse impacto se manifesta de diferentes maneiras:
- 26% relatam uma queda perceptível na produtividade devido aos sintomas.
- 17% admitem ter medo de compartilhar o que estão passando com os colegas de equipe.
- 9% enfrentam receio e barreiras psicológicas para abordar o assunto diretamente com seus gestores imediatos.
O estudo também revela consequências ainda mais drásticas para o desenvolvimento profissional: 6% das brasileiras sentem que perderam promoções ou reajustes salariais decorrentes de sua condição física e hormonal, e 9% afirmam ter sofrido discriminação explícita no escritório após o início do climatério. Para 7% das entrevistadas no país, o peso dos sintomas foi tão severo que a única saída viável foi o abandono definitivo de suas carreiras.
A percepção pública sobre a falta de suporte corporativo no Brasil é uma das mais críticas do estudo global. Cerca de 80% dos brasileiros (8 em cada 10 respondentes) acreditam que as trabalhadoras nacionais recebem menos apoio das empresas do que mulheres de outros países. Além disso, 49% dos entrevistados concordam que a menopausa atua como um obstáculo invisível, prejudicando o reconhecimento profissional e o avanço a cargos de liderança.
Sobre a Astellas
A Astellas é uma empresa global de ciências da vida comprometida em transformar a ciência inovadora em VALOR para os pacientes. Oferecemos terapias transformadoras em áreas terapêuticas que incluem Oncologia, Oftalmologia, Urologia, Imunologia e Saúde Feminina. Por meio de nossos programas de pesquisa e desenvolvimento, somos pioneiros em novas soluções de saúde para doenças com alta necessidade médica não atendida. Saiba mais em www.astellas.com.
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Camile Freitas | [email protected]































